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No 6º Congresso da Fenametro, metroviários de todo país relatam desafios enfrentados pela categoria

21.08.17 Destaques, Geral, Notícias Tags:, ,

A luta dos metroviários do Brasil e da América Latina tem muitos pontos em comum. Os metroviários presentes no 6º Congresso da Fenametro, realizado de 17 a 20 de agosto em Atibaia, São Paulo, relataram a situação dos metrôs onde atuam, com grandes semelhanças em relação aos enfrentamentos contra a terceirização, privatização e sucateamento do sistema.

A Fenametro vem denunciando, junto a seus sindicatos, as tentativas de privatização dos metrôs, e em campanha em defesa de um metrô público, estatal e de qualidade.

No Distrito Federal, os metroviários enfrentam a ameaça da privatização e a precarização do trabalho. De acordo com Tânia Aparecida Viana, metroviária do Distrito Federal e diretora da Fenametro, a categoria passou por 5 anos de contratos terceirizados na bilheteria, segurança, limpeza e em outras áreas. “Hoje a bilheteria não é mais terceirizada, mas já há intenção de substituir esta área por máquinas”, afirmou.

Tania explica que há grande intenção de privatização do metrô, já houveram inclusive 3 tentativas, e uma das provas é a política bancada pela empresa quanto a liberação de catracas. “Há 3 anos o Metrô DF abre cancelas todos os dias, em várias estações, um prejuízo feito de forma proposital pelo governo”, disse.

O metrô do Rio de Janeiro é privatizado desde 1998, e um exemplo dos efeitos da privatização, com baixos salários, falta de funcionários, ambiente hostil à organização dos trabalhadores e alta tarifa.

De acordo com Heber Fernandes, presidente do SIMERJ, pouco antes da privatização do metrô havia uma descrença da categoria de que isto pudesse acontecer. “A categoria não acreditava que fosse possível. Na época tínhamos um quadro de 3.600 empregados, que foi reduzido até chegar a 1.200”, disse.

A demissão de funcionários é uma política recorrente da empresa, não só de precarização, mas também para criar uma cultura anti-sindical. De acordo com Ariston Siqueira dos Santos, no ano de 2000, na primeira greve de uma empresa privatizada no Brasil, a concessionária iniciou um processo de demissão ainda durante a greve. “A empresa continuou o processo de demissão, para cortar uma cultura de luta da categoria e hoje faz essas práticas inclusive nos processos seletivos, afastando candidatos com perfil de luta sindical”, acredita.
Em São Paulo, o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) está promovendo um verdadeiro desmonte das empresas públicas. No caso do metrô, o primeiro exemplo é a Linha 4-Amarela, primeira privatizada do sistema, que já custa o dobro do valor do projeto original

O coordenador geral do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Raimundo Borges Cordeiro de Almeida Filho, explica o plano de Alckmin de entregar diversas linhas do metrô para iniciativa privada. “A intenção do governo é entregar a Linha 5-Lilás e 17-Ouro e depois privatizar a Linha 2-Verde e a Linha 15-Prata. Se tudo se concluir, o metrô só ficará com 2 linhas estatais”, disse.

Raimundo ainda explica que a licitação da Linha 5-Lilás, que já está um ano atrasada, foi adiada apenas para que a empresa vencedora possa contratar as perdedoras, no que é chamado de “quarteirização”, afirma.

Outro problema enfrentado pelos metroviários de São Paulo é a terceirização, como ilustra Wagner Fajardo, coordenador geral do Sindicato dos Metroviários. Segundo Fajardo, “há um processo avançado de terceirização das bilheterias, e ameaça em várias áreas da manutenção, além do setor administrativo, onde já há terceirização na área de projetos há alguns anos”.

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Terceirização é problema comum

No Rio Grande do Sul a terceirização também faz parte do cotidiano da categoria. Segundo o relato do presidente do Sindicato dos Metroviários do Rio Grande do Sul, Luís Henrique Chagas, 90% da manutenção já é terceirizada. Chagas reforçou a luta da categoria para barrar a privatização, que mobilizou até a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e as Câmaras Municipais das regiões metropolitanas, onde já foram realizadas audiências públicas e criadas Frentes Parlamentares contra a privatização.

Um dos grandes problemas da categoria, de acordo com Camila Palomo Debesaity, diretora do Sindicato dos Metroviários do Rio Grande do Sul, é a falta de efetivo, que prejudica a categoria e os usuários, e afeta diretamente a segurança nas estações. Ainda segundo Camila, a tarifa da Trensurb teve um aumento de R$ 1,70 para R$ 2,50.

No Piauí a falta de efetivo e a precarização do trabalho são grandes problemas. O metrô conta com poucos funcionários, cerca de 62, e as condições são tão precárias que em muitas estações não há nem bebedouros. O presidente do Sindicato dos Metroviários do Piauí, Daniel Vieira do Nascimento, ainda relata que até este mês o acordo coletivo de trabalho ainda não estava fechado.

Parte da rede da CBTU, o metrô de Recife, Pernambuco, tem sucateamento em todos setores. Diretor do Sindicato dos Metroviários de Pernambuco, Rogério Atanásio Pires de Lima, retrata uma situação de intensa precarização, com a terceirização das bilheterias já há alguns anos. Ainda de acordo com Rogério, há grande insegurança no sistema, com intensa falta de equipamentos para os funcionários.

Em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde o metrô também é parte da rede da CBTU, a categoria conseguiu uma grande vitória contra a terceirização. A presidente do Sindicato dos Metroviários de Minas Gerais, Alda Lúcia Fernandes dos Santos, relata que nos próximos meses serão contratados 583 empregados, após vitória judicial. “Acabar com a terceirização é importante para que a luta seja melhor. Os terceirizados não têm direito a nada”, afirmou.

A luta é internacional

A luta contra a privatização dos metrôs e por direitos trabalhistas não é apenas brasileira. Metroviários da Argentina e do Chile também estiveram presentes e retratam a situação dos seus metrôs.

O metrô de Buenos Aires, Argentina, foi privatizado no mesmo ano que o do Rio de Janeiro, 1194. Diretor do Sindicato del Subte, Enrique Omar Rositto, relembra que os objetivos declarados na época para justificar a privatização foram que haveria uma melhora tecnologia e do serviço, e seria mais econômico.”Hojem, 23 anos depois, vemos que foi claramente um fracasso. O serviço é ruim, lento, caro, inseguro, tem tudo que não deveria haver em um transporte público”, afirmou.

O metrô chileno, diferente do argentino, é estatal. Considerado um patrimônio da população, tem, de acordo com Eric Campos Bonta, do Sindicato de Trabajadores de Metro, outras formas de privatização. “Hoje 70% do metrô é terceirização, isso é uma forma de privatizar. Privatização da manutenção, da operação de trens e das bilheterias”, disse.