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O fim da SuperVia comprova fracasso da privatização

03.06.26 Destaques, Notícias Tags:, ,

O encerramento das operações da SuperVia marca o fim de um dos mais emblemáticos experimentos de privatização do transporte ferroviário urbano no Brasil. Após quase três décadas à frente dos trens metropolitanos do Rio de Janeiro, a concessionária deixa para trás uma herança de estações degradadas, falhas recorrentes, perda de passageiros, insegurança e um sentimento compartilhado por milhões de trabalhadores: o de abandono.

Mais do que a troca de uma operadora por outra, o momento exige uma reflexão profunda sobre os rumos da mobilidade urbana no país. Afinal, o que a experiência da SuperVia nos ensina?

Durante anos, a população fluminense ouviu que a iniciativa privada seria capaz de entregar eficiência, investimentos e qualidade de serviço. O que se viu, na prática, foi um sistema incapaz de responder às necessidades da população. O transporte sobre trilhos, que deveria ser um instrumento de integração metropolitana e desenvolvimento social, foi submetido à lógica da rentabilidade financeira.

Quando os lucros não corresponderam às expectativas do mercado, os investimentos diminuíram, a infraestrutura envelheceu e os passageiros passaram a conviver diariamente com atrasos, superlotação e precarização. Mais uma vez, confirmou-se uma realidade conhecida pelos trabalhadores do setor: quando o transporte público é tratado como negócio, o interesse coletivo costuma ficar em segundo plano.

A crise da SuperVia também desmonta uma narrativa repetida há décadas: a de que a privatização, por si só, é sinônimo de modernização. A experiência brasileira mostra justamente o contrário. Sistemas de transporte de massa exigem planejamento de longo prazo, forte capacidade de investimento e compromisso permanente com a universalização do acesso. São características que nem sempre se compatibilizam com contratos estruturados prioritariamente para garantir retorno financeiro aos concessionários.

O exemplo de São Paulo

O contraste com a trajetória histórica da CPTM, em São Paulo, é revelador. Ao longo dos anos 1990 e 2000, o Estado assumiu a responsabilidade de recuperar uma rede ferroviária igualmente sucateada, realizando investimentos públicos em infraestrutura, sinalização, acessibilidade e renovação da frota. O resultado foi a transformação de um sistema degradado em uma das principais redes de transporte metropolitano do país.

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Isso não significa ignorar os desafios atuais enfrentados pelos trabalhadores e usuários paulistas. Pelo contrário. As recentes experiências de privatização das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda demonstram que a transferência da operação para empresas privadas voltou a produzir problemas conhecidos: falhas operacionais, interrupções de serviço e insatisfação dos passageiros. O que acontece hoje em São Paulo serve como alerta para o Rio de Janeiro e para todo o país.

A saída da SuperVia deveria abrir espaço para um debate mais amplo sobre qual modelo de transporte o Brasil deseja construir. Um sistema voltado para garantir dividendos ou uma política pública orientada pelo direito à mobilidade?

O transporte ferroviário urbano não é apenas um serviço. É uma ferramenta estratégica de desenvolvimento econômico, redução das desigualdades, combate às mudanças climáticas e melhoria da qualidade de vida nas grandes cidades. Por isso, não pode ser pensado exclusivamente sob a lógica do mercado.

A chegada da nova operadora representa uma oportunidade de reconstrução, mas não elimina os problemas estruturais que levaram o sistema ao atual estágio de deterioração. O desafio vai muito além da troca de nome na administração dos trens. Será necessário recuperar a infraestrutura, ampliar investimentos, valorizar os trabalhadores do setor e recolocar os passageiros no centro das decisões.

Os usuários dos trens do Rio de Janeiro merecem mais do que promessas. Merecem um sistema seguro, eficiente, acessível e digno. E a principal lição deixada pela experiência da SuperVia é que a mobilidade urbana não pode ser tratada como mercadoria. Ela é um direito fundamental e uma responsabilidade pública que impacta diretamente a vida de milhões de brasileiros todos os dias.