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Dois descarrilamentos em menos de 24h expõem efeitos da privatização em SP

17.08.26 Destaques, Notícias Tags:, ,
Linha 8 – Diamante, operada pela ViaMobilidade – Foto: Reprodução

A sequência de falhas graves nos trens metropolitanos de São Paulo volta a colocar em xeque o modelo de privatização adotado pelo governo paulista. Em apenas dois dias, 13 e 14 de agosto, dois trens da Linha 8-Diamante, operada pela ViaMobilidade, descarrilaram em ocorrências que afetaram diretamente a circulação e expuseram passageiros e trabalhadores a situações de risco.

O segundo episódio ocorreu na sexta (14), quando um trem descarrilou entre as estações Osasco e Comandante Sampaio, justamente no horário de pico da volta para casa. Os passageiros precisaram desembarcar da composição e caminhar pelos trilhos da via férrea. Não houve registro de feridos, mas o incidente provocou atrasos expressivos, aumento dos intervalos entre os trens e impactos também na Linha 9-Esmeralda, que faz integração em Osasco e também é operada pela ViaMobilidade.

A circulação no trecho afetado foi normalizada somente às 18h39, depois que equipes de manutenção trabalharam no local e utilizaram uma via auxiliar para restabelecer a operação.

O episódio ocorreu menos de 24 horas depois de outro descarrilamento, registrado na quinta-feira (13), por volta das 17h30, também em horário de pico. Desta vez, um trem sem passageiros e em baixa velocidade descarrilou um conjunto de rodas ao passar por um aparelho de mudança de via nas proximidades da Estação Júlio Prestes, na região central da capital.

A ausência de passageiros na composição evitou uma ocorrência potencialmente ainda mais grave. Ainda assim, o acidente exigiu o fechamento temporário da estação para a retirada do trem e os reparos na via. A composição só foi removida durante a madrugada, e a Estação Júlio Prestes foi reaberta integralmente às 4h40 de sexta-feira.

ARTESP cobra explicações da concessionária

Diante da reincidência das ocorrências, a Agência de Transporte do Estado de São Paulo (ARTESP) notificou a ViaMobilidade em caráter de urgência para que apresente um relatório técnico detalhado, com o diagnóstico das causas dos descarrilamentos e as medidas preventivas adotadas para evitar novos acidentes.

A agência informou que fará uma avaliação rigorosa do material apresentado pela concessionária e poderá instaurar processo administrativo sancionatório. As multas previstas podem variar de R$ 40 mil a R$ 4 milhões.

Para a Fenametro, entretanto, a questão não pode ser reduzida à aplicação de multas depois que os problemas já ocorreram. É preciso discutir de forma mais profunda se o modelo de concessão adotado pelo governo de São Paulo é capaz de garantir aquilo que deveria ser prioridade absoluta em um sistema de transporte coletivo: segurança, manutenção adequada, regularidade e atendimento digno à população.

A Linha 8-Diamante foi privatizada em 2021, durante o governo de João Doria, e passou a ser operada pela ViaMobilidade. Desde então, a operação privada tem sido marcada por uma série de episódios que alimentam questionamentos sobre a qualidade da prestação do serviço e sobre a capacidade da concessionária de assegurar a manutenção adequada de uma infraestrutura essencial para milhões de passageiros.

O problema não é um caso isolado

A situação das linhas 8 e 9 precisa ser analisada também à luz do que ocorreu recentemente nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, cuja operação foi transferida para a iniciativa privada em julho deste ano.

Nos primeiros dias da gestão privada, iniciada em 21 de julho, uma sucessão de falhas graves atingiu as três linhas. Entre os dias 21 e 23 de julho, foram registradas mais de sete ocorrências de grande impacto, culminando na paralisação simultânea do sistema em 23 de julho, após uma explosão no sistema de energia da Linha 12-Safira.

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Os problemas incluíram paralisações, lentidão, superlotação de plataformas e falhas de infraestrutura. A sequência de ocorrências provocou transtornos para milhares de passageiros e levantou questionamentos sobre as condições de segurança e sobre a capacidade da empresa responsável de assumir imediatamente a operação de uma malha ferroviária complexa e essencial para a Região Metropolitana de São Paulo.

A gravidade da situação levou a ARTESP a determinar que a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) reassumisse temporariamente a gestão direta e a operação das três linhas por até 90 dias.

O Ministério Público de São Paulo também instaurou inquérito civil para apurar responsabilidades e investigar os problemas recorrentes. O procedimento, assinado pela promotora Patrícia de Carvalho Leitão, requisitou informações à Trivia Trens, à CPTM, à ARTESP e à Secretaria dos Transportes Metropolitanos, incluindo relatórios técnicos de manutenção e informações sobre medidas emergenciais de fiscalização e segurança.

Privatização não pode significar transferência de riscos para a população

Os episódios recentes revelam uma contradição que precisa ser enfrentada pelo governo Tarcísio de Freitas: enquanto o Estado transfere a operação de serviços essenciais para empresas privadas, os riscos decorrentes de falhas de manutenção, infraestrutura e operação continuam recaindo sobre a população e sobre os trabalhadores.

Não basta entregar a exploração das linhas e esperar que a iniciativa privada seja capaz de resolver problemas históricos da rede. Transporte ferroviário exige conhecimento técnico acumulado, planejamento de longo prazo, equipes qualificadas, manutenção permanente e investimentos contínuos. Quando esses elementos são submetidos à lógica da rentabilidade, a conta pode acabar sendo paga por quem está dentro dos trens e nas plataformas.

O caso das linhas 8 e 9 é especialmente emblemático. Dois descarrilamentos em menos de 24 horas não podem ser tratados como uma simples sequência de incidentes desconectados. É necessário investigar as condições da via permanente, dos aparelhos de mudança de via, dos trens, dos procedimentos de manutenção e das condições de trabalho das equipes responsáveis pela segurança da operação.

A Fenametro defende que os relatórios técnicos produzidos pela concessionária e pela ARTESP sejam divulgados integralmente e que qualquer irregularidade seja rigorosamente investigada. A população tem o direito de saber por que os acidentes estão acontecendo, quais investimentos estão sendo realizados e quais medidas concretas estão sendo tomadas para impedir que novas ocorrências coloquem vidas em risco.

A sucessão de problemas nas linhas privatizadas reforça uma questão central: transporte público não pode ser tratado como negócio.

O governo Tarcísio de Freitas insiste em avançar com a privatização e o desmonte da estrutura pública de transporte sobre trilhos. Mas os acontecimentos recentes mostram que entregar linhas à iniciativa privada não elimina os problemas — e pode criar novos riscos quando a busca por eficiência empresarial entra em conflito com as exigências de segurança e continuidade de um serviço público essencial.

Para a Fenametro, é preciso interromper essa lógica de desmonte, fortalecer a CPTM e o Metrô como empresas públicas, valorizar os trabalhadores e garantir investimentos permanentes na manutenção e modernização da rede.

A segurança dos passageiros e dos trabalhadores não pode ser colocada em segundo plano para garantir lucro às concessionárias. Transporte público é direito da população e deve estar sob controle público, com qualidade, segurança e responsabilidade.