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Privatizações, tarifas e serviços públicos: você pode barrar o projeto da extrema direita

29.09.26 Destaques, Notícias
São Paulo é um bom exemplo do que pode causar uma gestão de extrema direita. Da Sabesp aos trilhos, Tarcísio de Fretas amplia concessões enquanto população e trabalhadores convivem com tarifas maiores, falhas e redução do quadro de funcionários.

O governo de Tarcísio consolidou, em São Paulo, uma política de ampliação das concessões e privatizações de serviços públicos. A Sabesp foi privatizada em 2024. Desde então, o governo avançou sobre linhas da CPTM e do sistema metroferroviário e anunciou novas concessões. Para a Fenametro, esse conjunto de medidas revela um modelo em que serviços essenciais passam a ser administrados segundo contratos privados e interesses econômicos.

A questão que se coloca para a população paulista é o que acontece quando esse processo avança sobre áreas cada vez maiores do Estado. E os próprios episódios registrados nos últimos anos permitem observar alguns dos efeitos e controvérsias associados a esse modelo.

No saneamento, a privatização da Sabesp tornou-se um dos principais exemplos. Estudo citado pela Fenametro, com base em dados financeiros da companhia e análise do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), aponta que o lucro líquido médio anual da empresa passou de R$ 3,4 bilhões no triênio 2021–2023 para R$ 9,2 bilhões em 2024–2025. No mesmo período, as despesas com pessoal caíram de uma média equivalente a 25% do valor adicionado para 13%.

Para a Federação, o caso da Sabesp serve como alerta para o que pode ocorrer com outras empresas públicas. A pergunta central é quem controla serviços essenciais e qual é a prioridade de sua operação: garantir direitos ou remunerar investimentos privados.

No transporte, o processo segue a mesma direção. O governo Tarcísio ampliou as concessões de linhas da CPTM e do Metrô. Em julho de 2026, as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade passaram à operação da Trivia Trens. Apenas três dias depois, uma ocorrência na Linha 12-Safira, com princípio de incêndio e paralisação da circulação, levou a Artesp a determinar que a CPTM retomasse temporariamente a operação dos três ramais por até 90 dias.

O episódio expôs uma contradição apontada repetidamente pela Fenametro: empresas públicas são retiradas da operação em nome da eficiência privada, mas continuam sendo chamadas quando surgem problemas que exigem capacidade operacional e estrutura pública.

Os números sobre falhas também alimentam o debate. Levantamento divulgado pela Fenametro, com base em dados da imprensa, apontou aumento de 27% nas ocorrências envolvendo Metrô e trens no primeiro semestre de 2026, passando de 161 para 205 registros. Na Linha 7-Rubi, concedida à iniciativa privada, o levantamento apontou aumento de 600% nas falhas durante o período analisado.

Não se trata apenas de panes e atrasos. O modelo também envolve dinheiro público. Na Linha 6-Laranja, documentos do contrato e de seus aditivos estão no centro de uma controvérsia envolvendo um custo adicional de R$ 3,7 bilhões. A Fenametro questiona a transparência e o desenho dos contratos que permitem a participação de empresas privadas em empreendimentos financiados com recursos públicos.

Na Linha 4-Amarela, outro caso citado pela Federação envolve um reequilíbrio econômico-financeiro que chegou a R$ 531,7 milhões. Para a entidade, episódios como esse colocam em debate quem assume os riscos financeiros das concessões e quem se beneficia quando os contratos são reequilibrados.

A população também sente os efeitos no bolso. Em janeiro de 2026, a tarifa de água subiu 6,11%, enquanto as tarifas de Metrô e trens passaram de R$ 5,20 para R$ 5,40. A Fenametro relaciona os reajustes à política de privatizações e concessões adotada em São Paulo.

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Enquanto isso, os trabalhadores enfrentam outro lado desse processo. Na Linha 6-Laranja, trabalhadores denunciaram jornadas consecutivas sem descanso, equivalentes a uma escala 7×0, além de problemas relacionados ao pagamento de vale-alimentação. As denúncias foram associadas pela Fenametro à pressão para acelerar a entrega da obra.

No Metrô, a Federação também critica a redução do quadro de funcionários, a falta de concursos e a ampliação das terceirizações. Segundo a entidade, a substituição de trabalhadores concursados por contratos precários pode afetar a formação, a experiência e a segurança da operação.

Um projeto que pode avançar

É nesse cenário que a Fenametro acompanha o debate eleitoral de 2026. Tarcísio de Freitas foi oficialmente lançado candidato à reeleição ao governo de São Paulo pelo Republicanos, em uma chapa que reúne, entre outros partidos, o PL. Flávio Bolsonaro participou da convenção que oficializou a candidatura.

A aproximação política entre os dois também aparece na campanha presidencial. Em setembro, Flávio Bolsonaro cumpriu agenda em São Carlos acompanhado por Tarcísio de Freitas.

No plano de governo apresentado por Flávio Bolsonaro para a Presidência, há propostas de redução do tamanho do Estado, reforma administrativa, cortes de ministérios e retomada de desestatizações. A Agência Brasil informa que o programa também prevê mudanças na gestão e compartilhamento de dados do SUS com a rede privada.

Esses elementos permitem identificar uma convergência programática em torno de maior participação privada na prestação de serviços e da redução da atuação direta do Estado, embora as políticas estaduais de Tarcísio e as propostas presidenciais de Flávio Bolsonaro sejam programas distintos e devam ser analisadas separadamente.

Para a Fenametro, a experiência paulista é justamente o ponto de partida para discutir os próximos passos. Se o processo de concessões continuar avançando, novas linhas de transporte e outros serviços públicos poderão entrar no mesmo modelo.

A experiência recente mostra que privatizar não significa simplesmente retirar o Estado da operação. O Estado continua responsável por fiscalizar, regular, financiar e, em determinadas situações, até reassumir temporariamente a operação quando uma concessionária enfrenta problemas. Foi o que ocorreu com a CPTM após a crise envolvendo a Trivia.

A disputa, portanto, não se resume a quem administra uma estação, uma linha de trem ou uma companhia de saneamento. Envolve uma escolha sobre o papel do serviço público, o destino dos recursos do Estado, as condições de trabalho e o preço pago pela população.

É nesse ponto que a Fenametro concentra sua atuação: defender Metrô, CPTM e demais sistemas públicos de transporte como serviços voltados ao interesse coletivo, com trabalhadores concursados, investimento permanente, transparência e controle público.

O debate sobre o futuro de São Paulo está aberto. Os resultados, os contratos e as experiências acumuladas nos últimos anos oferecem elementos concretos para que a sociedade acompanhe o que está sendo entregue, quem assume os riscos e quais serviços ainda poderão ser submetidos ao mesmo modelo.

Porque, para além das promessas de eficiência, permanece uma questão objetiva: quando um serviço público é concedido à iniciativa privada, quem fica responsável pela conta quando a operação dá errado — e quem fica com os ganhos quando ela dá certo?