Privatização: quando o dinheiro é público, mas o controle fica com as empresas
18.08.26 Destaques, Notícias
Os recentes descarrilamentos nas linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda recolocam em evidência um problema que vai muito além das falhas nos trilhos: o modelo de privatização do transporte público em São Paulo.
Sob o governo Tarcísio de Freitas, esse modelo foi acelerado. A promessa é sempre a mesma: a iniciativa privada investiria, modernizaria e tornaria o serviço mais eficiente. Mas a realidade mostra outra equação: o Estado continua colocando dinheiro, enquanto empresas privadas assumem a operação e a exploração econômica dos serviços.
Um dos exemplos mais emblemáticos é a Linha 6-Laranja. Documentos sobre o contrato e seus aditivos estão no centro de uma controvérsia envolvendo a justificativa para um custo adicional de R$ 3,7 bilhões. A imprensa revelou que o governo mantém sob sigilo documentos que poderiam explicar esse aumento. O governo Tarcísio nega, porém, que tenha decretado “sigilo de 100 anos”.
A pergunta permanece: por que um negócio que envolve bilhões de reais de recursos públicos não pode ser plenamente transparente para a população?
Dinheiro público para empresas privadas
O mesmo paradoxo aparece no debate sobre a Tarifa Zero.
A discussão não pode ser apenas sobre cobrar ou não cobrar passagem. É preciso perguntar quem financia o transporte e para onde vai esse dinheiro.
Enquanto se discute ampliar o subsídio público para garantir transporte acessível, investigações recentes expuseram suspeitas de infiltração do PCC em empresas privadas de ônibus da capital. No caso da Transunião, o Ministério Público apontou suspeitas de utilização da empresa em operações de lavagem de dinheiro relacionadas à facção criminosa.
O caso não significa estabelecer qualquer ligação entre o PCC e as concessionárias metroferroviárias. Mas revela um problema estrutural: quando serviços essenciais são operados por empresas privadas e recebem recursos públicos, transparência, fiscalização e controle social precisam ser ainda maiores.
E é justamente o contrário que a política de privatizações de Tarcísio promove: menos Estado na operação, mais contratos privados e enormes volumes de recursos públicos envolvidos.
Privatiza-se o serviço. Socializa-se o risco.
Os descarrilamentos da ViaMobilidade, os problemas nas linhas recém-concedidas e os bilhões envolvidos nas novas concessões revelam a contradição do modelo.
Quando o trem falha, o passageiro paga. Quando falta manutenção, o trabalhador e o usuário ficam expostos. Quando o contrato precisa ser reequilibrado, aparece o dinheiro público.
Para a Fenametro, transporte público não pode ser tratado como negócio.
Tarifa Zero deve significar democratização do direito à mobilidade — e não transferência de dinheiro público para garantir lucro privado.
O que São Paulo precisa é de transporte público, estatal, seguro, transparente e controlado pela sociedade, com trabalhadores valorizados e investimentos permanentes.
O dinheiro é público. O transporte é um direito. Então, por que o controle precisa ser privado?




