Sabesp privada acende alerta: é esse o modelo que Tarcísio quer para o Metrô de SP
21.07.26 Destaques, Notícias
Experiência do saneamento mostra os efeitos de uma política que prioriza a rentabilidade dos acionistas, reduz postos de trabalho e coloca em risco a qualidade dos serviços públicos. Para a Fenametro, o modelo que vem sendo implantado na Sabesp é um alerta sobre o futuro que o governo Tarcísio de Freitas pretende impor ao sistema metroferroviário paulista.
A privatização da Sabesp, concluída em julho de 2024 pelo governo Tarcísio de Freitas, oferece um retrato dos efeitos de uma política que transforma serviços públicos essenciais em ativos para geração de lucro privado. O que está em jogo agora é se o mesmo modelo será aprofundado em outras áreas estratégicas do Estado, como o Metrô de São Paulo.
Uma investigação realizada pelo Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS) aponta uma forte elevação dos lucros da Sabesp após a privatização, acompanhada de expressiva redução dos custos operacionais, especialmente das despesas com pessoal.
Os dados financeiros da companhia mostram que o lucro líquido médio anual, que foi de R$ 3,4 bilhões no triênio 2021–2023, antes da privatização, saltou para R$ 9,2 bilhões no biênio 2024–2025. Um crescimento de aproximadamente 2,7 vezes.
Em outras palavras, a parcela da receita de saneamento convertida em lucro praticamente dobrou. Em 2025, de cada R$ 10 pagos pela população nas tarifas de água e esgoto, R$ 3,40 foram transformados em lucro líquido.
| Ano | Receita de saneamento (R$ milhões) | Lucro líquido (R$ milhões) | Lucro/Receita | Despesa com pessoal/Valor Adicionado |
|---|---|---|---|---|
| 2021 | 19.866 | 2.810 | 14% | 26% |
| 2022 | 21.435 | 3.591 | 17% | 24% |
| 2023 | 23.645 | 3.873 | 16% | 25% |
| 2024 | 24.913 | 9.988 | 40% | 14% |
| 2025 | 24.761 | 8.462 | 34% | 13% |
Fonte: Relatórios financeiros publicados pela Sabesp. Valores atualizados pelo IPCA para 31/12/2025.
O dado mais revelador está na relação entre lucro e força de trabalho. Antes da privatização, as despesas com pessoal representavam, em média, 25% do valor adicionado pela empresa. No biênio 2024–2025, essa participação caiu para 13,5%.
A redução de custos veio acompanhada de uma profunda diminuição do quadro de trabalhadores. Dos cerca de 12.300 funcionários existentes ao final de 2022, quase 5.800 foram demitidos — aproximadamente 47% da força de trabalho. O processo representa também uma perda significativa de conhecimento e experiência acumulados ao longo de décadas.
Enquanto isso, a remuneração da alta direção disparou. Segundo informações prestadas pela própria companhia à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a remuneração média prevista para cada um dos seis diretores estatutários da Sabesp em 2025 chegou a aproximadamente R$ 708 mil mensais. Em 2024, a média mensal informada era de R$ 97,5 mil — um aumento de cerca de 626%.
A comparação é ainda mais significativa quando colocada ao lado dos reajustes concedidos aos trabalhadores: 5,53% em 2025 e 4,39% em 2026.
Para a Fenametro, a experiência da Sabesp reforça uma preocupação central: quando a lógica da rentabilidade privada passa a orientar serviços públicos essenciais, a redução de custos pode recair sobre trabalhadores, manutenção, investimentos e qualidade do atendimento à população.
Os efeitos dessa mudança já aparecem em diferentes episódios envolvendo a companhia. Em abril de 2025, o rompimento de um interceptor de esgoto provocou uma enorme cratera na Marginal do Tietê. Durante o período de reparo, o volume de esgoto lançado no rio chegou a ser equivalente a 77 piscinas olímpicas por dia. A cratera só foi fechada um ano depois.
Em setembro de 2025, uma mulher de 79 anos morreu em sua residência, em Mauá, atingida por uma tubulação que desceu por uma ladeira. Em Mairiporã, o colapso de um reservatório metálico de 2 milhões de litros provocou uma morte, deixou feridos e inundou dezenas de imóveis.
Na região de Campinas, moradores de Hortolândia, Paulínia e Monte Mor também relataram problemas relacionados ao cheiro e ao gosto da água distribuída.
A falta d’água passou a fazer parte do cotidiano de milhares de pessoas, enquanto a chamada “gestão de demanda noturna” é utilizada como estratégia para reduzir perdas por meio da restrição da oferta. O impacto é especialmente grave para a população mais vulnerável.
Também houve crescimento das reclamações. Na Arsesp, a média mensal de queixas contra a empresa na Grande São Paulo aumentou 70% na comparação entre os primeiros trimestres de 2025 e 2026. No Procon-SP, a Sabesp registrou 6.879 reclamações em 2025, com quase 70% dos casos não atendidos. Falta d’água e problemas nas faturas estão entre as principais queixas.
A explosão ocorrida no bairro do Jaguaré, na Capital, durante obras da Sabesp, também expôs os riscos associados à execução dos serviços. O acidente matou duas pessoas, deixou feridos, destruiu dez moradias e atingiu dezenas de famílias.
O próprio governador Tarcísio de Freitas afirmou, após o episódio, que o volume e a segurança das obras da Sabesp estavam “tirando o sono”.
A declaração levanta uma questão que também precisa ser feita quando se discute o futuro do transporte público paulista: se a privatização da Sabesp já apresenta tantos sinais de alerta, por que o governo insiste em levar a mesma lógica para outros serviços essenciais?
É justamente esse o alerta que a Fenametro faz diante dos projetos de privatização e concessão que atingem o sistema metroferroviário de São Paulo.
O Metrô não é apenas uma empresa. É um serviço essencial para milhões de pessoas e uma infraestrutura estratégica para o funcionamento da maior cidade do país. Sua operação exige trabalhadores qualificados, manutenção permanente, investimentos de longo prazo e compromisso absoluto com a segurança dos passageiros e dos profissionais.
A experiência da Sabesp mostra que a privatização não é uma solução neutra. Ela muda a prioridade da gestão. O que antes era orientado pelo interesse público passa a conviver com a necessidade de remunerar acionistas e ampliar margens de lucro.
A pergunta que fica é: quem ganha e quem perde quando serviços públicos essenciais são entregues à iniciativa privada?
Para a Fenametro, a resposta não pode ser dada apenas pelos balanços financeiros das empresas. É preciso olhar para a população, para os trabalhadores e para a qualidade do serviço prestado.
O que está acontecendo na Sabesp deve servir de alerta para São Paulo. O Metrô não pode seguir o mesmo caminho. Privatizar pode significar transformar um serviço público essencial em negócio — e quem paga a conta, mais uma vez, pode ser a população.
Com informações do Portal Outras Palavras / Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS)




