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Ironia: RJ paga milhões para aprender com CPTM, empresa que o Tarcísio quer liquidar

15.06.26 Destaques, Notícias Tags:, ,
Imagem criada por IA representando o acordo entre CPTM e TrensRJ (Foto: Chat GPT)

Há uma lógica fascinante na gestão pública moderna: se algo funciona bem demais, o segredo é se livrar o quanto antes. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), parece seguir essa cartilha à risca. Para o Palácio dos Bandeirantes, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) é uma espécie de fardo, uma estrutura que “não presta mais” e que precisa ser concedida à iniciativa privada em ritmo de liquidação de estoque. Afinal, quem precisa de expertise estatal quando se pode passar o bastão para concessionárias privadas, aquelas mesmas cujas linhas vivem sofrendo com falhas estruturais, descarrilamentos e panes elétricas que fazem o paulistano testar sua fé diariamente?

Mas o mundo dá voltas, e a ironia ferroviária caprichou no traçado dos trilhos nos últimos anos. Enquanto o governo de SP corre para empacotar a CPTM e entregá-la ao mercado sob o argumento de que o Estado é incapaz de gerir linhas de trem, o vizinho Rio de Janeiro, cujo sistema de transportes vive em eterno estado de calamidade pública, resolveu olhar para São Paulo. Mas eles não olharam para as reluzentes e problemáticas linhas privadas da RMSP. Eles olharam justamente para a “incompetente” CPTM.

No dia 22 de maio, a CPTM e a PY13 Participações S/A (a nova permissionária do caótico sistema fluminense) assinaram um singelo contrato de R$ 9 milhões, que pode chegar a mais de R$ 10 milhões com serviços adicionais. O motivo? O Rio de Janeiro precisa de um “diagnóstico técnico especializado” para salvar sua malha ferroviária. E adivinha quem tem o conhecimento, a maturidade e a excelência operacional para resolver o problemão técnico dos outros? Ela mesma: a CPTM de São Paulo.

O “pecado” de ter modernizado São Paulo

Para quem defende o fim da CPTM com o argumento de que ela é obsoleta, vale a pena um rápido mergulho na memória recente do transporte paulista. Criada em 1992 para assumir os trilhos da antiga CBTU e da Fepasa, a CPTM recebeu uma herança deplorável: trens caindo aos pedaços, estações que pareciam cenários de filmes de terror, intervalos altíssimos e passageiros viajando pendurados nas portas (os famosos “surfistas de trem”). A malha ferroviária de São Paulo era “um caso de polícia”.

O que a CPTM fez nas últimas décadas foi um verdadeiro milagre de engenharia e gestão pública, transformando linhas em condições críticas em um sistema que passou a não dever nada aos mais modernos sistemas de metrô mundo afora:

  • A frota mais moderna do país: substituiu quase a totalidade dos trens antigos por composições modernas, com ar-condicionado, salão contínuo e tecnologia de ponta;
  • Acessibilidade e dignidade: reconstruiu dezenas de estações, transformando antigas estruturas em terminais modernos, acessíveis e interligados com ônibus e metrô;
  • Intervalos reduzidos: reduziu o tempo de espera dos trens de horas para poucos minutos, transportando quase 3 milhões de pessoas por dia antes das primeiras concessões;
  • O Expresso Aeroporto: conectou a capital ao principal aeroporto do país (Guarulhos), uma promessa que o setor privado levou décadas para sequer rascunhar;
  • Mobilidade ativa: implantou dezenas de bicicletários integrados às suas estações, fomentando a integração modal por meio de bicicletas.
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A CPTM pegou um sistema falido e o transformou em uma engrenagem que carrega a força de trabalho que move o PIB do Brasil. Mas, aparentemente, o prêmio por essa eficiência é receber um bilhete de demissão do governador.

Consultoria de luxo para exportação

A qualidade incontestável da estatal é corroborada quando lemos a declaração do atual presidente da companhia, Michael Cerqueira. Ele exalta a “qualidade e a maturidade técnica da CPTM”, celebrando 13 contratos assinados com entes públicos e privados que transformaram o conhecimento acumulado da empresa paulista em “produtos competitivos para o mercado”.

Ou seja: a CPTM virou uma consultoria de luxo cobiçada no país inteiro. Seus técnicos vão desenvolver 34 produtos complexos, analisar passivos ambientais e dar um parecer sobre a aptidão técnica da nova operadora para colocar os trens, literalmente, nos trilhos. Eles têm a faculdade, o mestrado e o doutorado em ferrovias. Eles sabem como operar sob pressão, como recuperar trilhos desgastados e como manter um sistema vivo. Mas, para o governo de SP, o veredito parece ser outro: “parabéns pelo trabalho, agora por favor entreguem as chaves para a iniciativa privada e saiam de fininho”.

O paradoxo dos trilhos: para São Paulo, a CPTM é o passado que precisa ser privatizado a qualquer custo. Para o Rio de Janeiro, o corpo técnico da CPTM é o futuro que pode salvar o sistema.

O paulista, que assiste a essa comédia corporativa da janela do trem, fica com uma dúvida genuína. Se a CPTM é tão incompetente a ponto de precisar ser fatiada e doada ao setor privado, por que o mercado privado e outros governos pagam milhões de reais para aprender com ela? Será que o Rio de Janeiro está comprando o segredo de como “não prestar”? Ou será que o que “não presta” em São Paulo é, na verdade, um padrão de excelência que o resto do Brasil só consegue ter se pagar muito caro pela consultoria paulista?

A partir de 8 de junho, os engenheiros da CPTM começam a trabalhar no plano para o RJ. Desejamos boa sorte aos fluminenses. Quem sabe, daqui a alguns anos, com a consultoria e o DNA da CPTM, o Rio de Janeiro consiga estruturar um sistema ferroviário tão bom que o governo de lá também queira privatizar novamente por achar que ele “não presta mais”.

Enfim, que essa parceria renda bons frutos e que a TrensRJ, com a ajuda da CPTM, faça o sistema ferroviário fluminense renascer, colocando-o no patamar que sempre mereceu: uma rede estrutural que merece condições dignas, atendendo a população como ela merece. De forma antecipada, desejamos toda a sorte do mundo para a nova operadora, pois temos certeza que ela não medirá esforços fará entregar o melhor.

Fonte: Plamurb