O que a privatização de Tarcísio entrega para SP: incêndios, panes, crateras e mortes
24.07.26 Destaques, Notícias
Três dias após assumir oficialmente as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, concessionária enfrenta incêndio em trem, passageiros andando pelos trilhos e interrupção simultânea da circulação. Para a Fenametro, o episódio expõe os riscos de entregar um serviço essencial à lógica do lucro
A privatização dos trens metropolitanos de São Paulo mal começou — e o caos já chegou aos trilhos.
Na manhã desta quinta (23), passageiros das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade enfrentaram uma operação marcada por incêndio em trem, falha elétrica, interrupção da circulação e desembarque de usuários nos trilhos. Imagens registraram passageiros caminhando sobre a via e uma composição em chamas na região da estação Bresser-Mooca.
O episódio ocorreu apenas dois dias depois de a concessionária Trivia Trens assumir oficialmente a operação das três linhas, que antes estavam sob responsabilidade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). A empresa, que integra o grupo Comporte Participações, passou a administrar mais de 100 quilômetros de vias e um sistema que transporta quase 1 milhão de passageiros por dia.
A ocorrência desta quinta-feira não foi um caso isolado. Durante os dois meses de chamada “operação assistida”, período em que a empresa já participava da operação sob supervisão da CPTM, as falhas na Linha 11-Coral dispararam. Segundo levantamento divulgado pela TV Globo e pelo g1, foram registradas 15 falhas na linha no primeiro semestre de 2026, contra apenas quatro no mesmo período de 2025 — um aumento de 275%.
O quadro geral também é preocupante. As falhas nas linhas privatizadas somaram 89 ocorrências no primeiro semestre de 2026, contra 57 no mesmo período do ano anterior, uma alta de 56,14%. No conjunto das linhas ferroviárias e metroviárias de São Paulo, foram 205 falhas, contra 161 em 2025 — crescimento de 27,33%.
O preço da privatização quem paga é o povo
O governo Tarcísio de Freitas promoveu a privatização das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade sob a promessa de modernização, expansão e melhoria dos serviços. O leilão, realizado em março do ano passado, prevê investimentos de R$ 14,3 bilhões ao longo dos 25 anos de concessão.
Mas, para quem depende do transporte público, a primeira impressão da nova gestão privada foi outra: incêndio, pane, superlotação, passageiros abandonados e uma cidade inteira impactada pela interrupção do serviço.
A falha nas três linhas provocou reflexos também no Metrô. Com a suspensão da circulação dos trens, milhares de passageiros migraram para a Linha 3-Vermelha, que registrou estações lotadas. A Prefeitura de São Paulo chegou a suspender o rodízio de veículos na Zona Leste diante do impacto provocado pelo colapso do sistema ferroviário.
O episódio deixa uma pergunta que o governo Tarcísio precisa responder: se a privatização foi apresentada como solução para melhorar o transporte, por que o sistema começou a apresentar uma sequência de problemas justamente no momento em que a gestão privada assumiu o controle?
Tarcísio privatiza e depois finge surpresa
Diante do desastre, o governador Tarcísio de Freitas classificou o ocorrido como “inaceitável” e afirmou que aplicaria as penalidades previstas. Também chegou a admitir a possibilidade de perda da concessão.
A reação, porém, não pode apagar a responsabilidade política de quem decidiu privatizar o serviço.
Foi o próprio governo Tarcísio que promoveu o leilão e entregou à iniciativa privada a operação de linhas fundamentais para a mobilidade da população da Grande São Paulo. Agora, diante dos primeiros sinais de uma crise anunciada, tenta se apresentar como fiscal de uma decisão que foi tomada pela própria administração estadual.
Não basta dizer que é “inaceitável”. O que a população espera é responsabilidade, transparência e explicações.
A Fenametro alerta há anos que a privatização de serviços essenciais não pode ser tratada como uma simples operação financeira. Transporte público não é mercadoria. É um direito social e um serviço essencial para milhões de trabalhadores e trabalhadoras que dependem dos trens para chegar ao trabalho, estudar, acessar serviços de saúde e voltar para casa.
A conta da privatização recai sobre os trabalhadores
Enquanto o governo vende a ideia de que a iniciativa privada seria mais eficiente, a realidade mostra que a operação de sistemas complexos de transporte exige conhecimento técnico, manutenção permanente, equipes qualificadas e investimento contínuo.
A lógica do lucro não pode se sobrepor à segurança dos passageiros e dos trabalhadores.
O incêndio desta quinta-feira e o desembarque de passageiros nos trilhos são fatos graves. Não se trata apenas de atraso ou de uma falha operacional qualquer. São ocorrências que colocam em risco a segurança de quem utiliza o transporte e revelam a fragilidade de uma transição conduzida às pressas.
A situação também reforça a necessidade de preservar e valorizar os trabalhadores metroferroviários, que acumulam experiência e conhecimento indispensáveis para garantir a segurança da operação. A transferência da gestão para empresas privadas não pode significar precarização, redução de equipes ou perda de conhecimento técnico acumulado pelo serviço público.
CPTM retorna por 90 dias — e a pergunta permanece
Diante da crise, a CPTM deverá retornar temporariamente à operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade por 90 dias.
A medida evidencia uma contradição: depois de vender a privatização como sinônimo de eficiência, o governo Tarcísio precisa recorrer novamente à empresa pública para tentar estabilizar a operação.
A estatal, que foi afastada da operação comercial após a concessão, agora volta emergencialmente para apagar o incêndio — literalmente e politicamente.
Para a Fenametro, o episódio reforça a necessidade de discutir o modelo de concessões adotado pelo governo paulista. A população não pode ser usada como laboratório de experiências privatistas enquanto empresas privadas assumem serviços essenciais com contratos de longo prazo e garantias de receita.
Privatizou. Piorou.
A sequência de acontecimentos é reveladora: aumento das falhas, plataformas lotadas, atrasos, incêndio, passageiros caminhando pelos trilhos e, agora, a necessidade de trazer de volta a CPTM para tentar garantir a operação.
Tudo isso apenas três dias depois da entrega definitiva das linhas à iniciativa privada.
O governo Tarcísio pode tentar chamar de “inaceitável”. Pode prometer multas. Pode ameaçar concessionárias. Mas não pode fugir da responsabilidade pela escolha política de privatizar o transporte público.
A Fenametro reafirma: transporte público é direito, não negócio.
A população de São Paulo merece trens seguros, eficientes, acessíveis e operados sob controle público. O que está em jogo não é apenas o funcionamento de três linhas. É o futuro da mobilidade de milhões de pessoas.
Privatizou. Piorou. E quem paga a conta é o povo.




