Notícias

Bilhete Único revela a farra das concessões em São Paulo

17.06.26 Destaques, Notícias Tags:, ,
Trens do Metrô (Foto: Thiago Silva)

Levantamento do pesquisador Thiago Silva, do Portal Plamurb, revela que modelo de concessões em São Paulo privilegia operadoras privadas e transforma o Bilhete Único em um mecanismo de transferência de recursos públicos para empresas que visam o lucro.

Quando se fala que as concessões favorecem a iniciativa privada, muita gente imagina que seja apenas um debate ideológico. Mas os números levantados pelo pesquisador Thiago Silva, do Portal Plamurb, mostram uma realidade difícil de contestar: o sistema foi desenhado para garantir a lucratividade das concessionárias, enquanto Metrô e CPTM ficam com as sobras.

Em 2025, a arrecadação do Bilhete Único alcançou R$ 7,6 bilhões. Desse total, cerca de R$ 3 bilhões foram destinados às operadoras sobre trilhos. O espanto está na divisão dessa fatia: Metrô e CPTM, juntos, receberam apenas 4,3% dos recursos da Câmara de Compensação, apesar de continuarem sendo responsáveis por uma parcela expressiva do transporte de passageiros na Região Metropolitana de São Paulo.

Enquanto isso, concessionárias privadas como ViaQuatro e ViaMobilidade ficaram com a maior parte dos recursos. Somadas, as empresas privadas absorveram 89,1% do dinheiro destinado ao sistema sobre trilhos, beneficiadas por contratos que garantem tarifas contratuais muito superiores ao valor efetivamente pago pelo usuário.

O resultado é uma inversão completa da lógica do transporte público. Quem mais transporta não é quem mais recebe. Pelo contrário: as empresas públicas sustentam a operação da rede enquanto veem seus recursos serem drenados para alimentar um modelo construído para assegurar a rentabilidade do setor privado.

A ironia é difícil de ignorar. A Linha 4-Amarela, operada pela ViaQuatro, possui uma das menores extensões da rede, é altamente automatizada, emprega menos trabalhadores e exige custos operacionais menores. Ainda assim, é justamente a concessionária que mais recebe recursos do Bilhete Único. Já Metrô e CPTM, que mantêm estruturas muito maiores e transportam milhões de passageiros diariamente, ficam com valores irrisórios.

Os próprios dados apresentados por Thiago Silva evidenciam o desequilíbrio. A tarifa média proveniente do Bilhete Único para a ViaQuatro chegou a R$ 5,72 por passageiro, enquanto o Metrô recebeu apenas R$ 0,59 por usuário e a CPTM cerca de R$ 0,73. Em outras palavras, o sistema recompensa quem opera menos e penaliza quem sustenta a espinha dorsal da mobilidade paulista.

Veja também  Categoria está em Campanha Salarial por todo país

Não se trata de uma distorção ocasional. É uma escolha política incorporada aos contratos de concessão para tornar o negócio atraente ao mercado financeiro. O lucro privado é garantido, enquanto o déficit das empresas públicas acaba sendo coberto pelo próprio Estado — ou seja, pelo dinheiro da população.

A perversidade do modelo fica ainda mais evidente quando se observa que as concessionárias transportaram cerca de 54,7% dos passageiros que utilizaram o Bilhete Único, mas ficaram com quase 90% da arrecadação destinada ao sistema sobre trilhos. Metrô e CPTM atenderam 45,3% dos usuários e precisaram dividir pouco mais de 10% dos recursos.

Na prática, a população financia um sistema que transfere dinheiro público para empresas privadas enquanto enfraquece justamente os operadores que historicamente garantiram a expansão e a qualidade do transporte sobre trilhos em São Paulo.

Com a entrada de novas concessionárias nos próximos anos, a tendência é que essa disputa pelos recursos do Bilhete Único se torne ainda mais intensa. A pergunta que permanece é inevitável: até quando será possível sustentar um modelo que socializa os custos e privatiza os lucros?

Os dados apresentados pelo pesquisador Thiago Silva reforçam aquilo que trabalhadores, especialistas e entidades do setor denunciam há anos: a privatização não tornou o transporte mais eficiente. Apenas criou um sistema em que o interesse público é constantemente subordinado aos contratos e à remuneração das concessionárias.

O que deveria financiar um serviço essencial para milhões de brasileiros acabou se transformando em uma engrenagem que privilegia poucos. E, no fim da linha, quem paga essa conta é sempre a população.